quarta-feira, 12 de março de 2014

A Unasul e a soberania: Reunião de hoje dirá até que ponto grupo está disposto a discutir questões vistas como internas dos países

JULIA SWEIG
Embora alguns dos protestos do ano passado no Brasil tenham sido violentos, não levaram instituições regionais ou internacionais nem grupos de chanceleres a exortar Brasília a fazer essa ou outra reforma política. Sim, os mercados fizeram as perguntas de praxe, e a incerteza em torno da Copa do Mundo se aguçou.
Diferentemente da Venezuela, porém, as credenciais democráticas essenciais do Brasil não chegaram a ser questionadas, embora a responsabilidade do governo para com os brasileiros continue a estar no centro das atenções neste ano eleitoral.
Os protestos na Venezuela e a resposta do governo são vulneráveis a chamados por fiscalização internacional precisamente porque a polarização há anos faz parte da estratégia chavista e da oposição. Sob essas circunstâncias, a participação de atores externos na resolução de conflitos não pode ser equacionada com intervenção pura e simples.
A reunião da Unasul que acontece hoje no Chile, país onde protestos e democracia parecem conviver de modo produtivo, nos dirá muito sobre até onde os sul-americanos estão ou não dispostos a conversar entre eles sobre questões tradicionalmente vistas como sendo soberanas.
Já vimos na semana passada, na OEA, um virtual consenso de que o governo de Nicolás Maduro merece o benefício da dúvida. Logo, é possível que Santiago não produza nenhuma surpresa.
Mas esperamos que a Unasul também tenha algo a dizer sobre o uso legítimo e ilegítimo da força por governos contra suas populações.
Joe Biden já terá deixado o Chile no momento em que os chanceleres da região se reunirem. Sua ausência, assim como a ausência de Washington da maior parte da diplomacia regional sul-americana, deve assinalar que há espaço para uma discussão que não seja anuviada pela sugestão de que os enfrentamentos na Venezuela sejam complô americano. A morte de uma chilena em Caracas pode ajudar a afastar tais distrações.
É claro que a história faz com que seja muito fácil fazer esse tipo de suposição na América Latina.
O contexto global também pesa: um olhar rápido pelas páginas de opinião editorial da imprensa latino-americana sugere que seja tentador (embora cause confusão e não seja útil) procurar na estratégia de Putin na Crimeia e na atuação americana e europeia em Kiev referências narrativas de hegemonia e resistência (ou das duas coisas, dependendo da perspectiva do leitor).
As diferenças entre a Venezuela e a Ucrânia são muitas, mas a mais notável é precisamente quão pouca influência os atores internacionais parecem ter em Caracas.
Saúdo a ascensão de instituições regionais não mais dominadas por Washington, especialmente se suas cúpulas oferecerem mais que o blá-blá-blá de sempre. Ser vistos como a causa ou a cura de todos os males da região não beneficia os EUA.
Entendo que nem o Brasil nem nenhum outro país da região tenha interesse em assumir esses ônus. Mas detesto imaginar mais um editorial do "Washington Post" lamentando o fracasso da liderança que emana de qualquer capital, quer seja Washington, quer seja Brasília.
Folha, 12.03.2013

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