quarta-feira, 12 de novembro de 2014

É preciso rever a política externa


Chegou a hora de diminuir a carga ideológica da política externa brasileira para darmos alguns passos em direção aos Estados Unidos


O Brasil tem dois ministérios para lidar diretamente com os assuntos relacionados ao comércio exterior. O Ministério das Relações Exteriores e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio poderiam obedecer à máxima que diz que "duas cabeças pensam melhor que uma".
Essa policefalia, no entanto, não evitou que o país acumulasse deficit comercial já no patamar de quase US$ 2 bilhões.
Na realidade, a nossa política internacional é uma serpente com muitas cabeças reunida na Camex (Câmara de Comércio Exterior). A Camex tem como finalidade dar coerência às nossas estratégias comerciais envolvendo diferentes setores. É a responsável pelos desequilíbrios no balanço entre o que compramos e o que vendemos ao mundo.
Tais desequilíbrios são resultado do processo precoce de desindustrialização nacional, que, por sua vez, também é bastante agravado por uma política externa comercial equivocada. Esse círculo vicioso no qual o país se meteu desde que optou por um alinhamento com a potência industrial chinesa a partir de 2008 é a causa maior do baixo crescimento do Brasil.
Com o fim das eleições, o governo continuará o mesmo, mas não necessariamente será mantida a política que nos enfraqueceu no cenário global. A julgar pelos problemas de crescimento da nossa economia, são possíveis ainda as mudanças no sentido de flexibilizar o Mercosul para nos permitir fazer negociações comerciais em separado e rever a aproximação intempestiva com Pequim que marcou a criação dos Brics.
No âmbito do G20, o Brasil caminhou muito até agora ao lado dos grandes emergentes asiáticos. A tradução disso em termos de crescimento para nós não é boa. Não vivemos as crises das nações desenvolvidas, mas também não experimentamos a expansão do capitalismo dos emergentes. Ficamos da média para baixo, até mesmo na América Latina.
As análises de câmbio foram ineficazes, pois o dólar subiu R$ 1 nos últimos quatro anos, justamente o período de maior queda das exportações. Até mesmo o idealizador dos Brics, Jim O'Neill, reconhece que o Brasil ficou chinês demais e que vender commodities é insuficiente.
Com o declínio da indústria, temos menos a oferecer ao mundo. Atuamos muito para eleger um brasileiro na OMC (Organização Mundial do Comércio) e o próprio presidente da organização, Roberto Azevêdo, faz hoje um pedido desesperado para salvar a instituição e a política externa que o colocou lá.
O problema maior é que o deficit comercial, a desindustrialização e o baixo crescimento já começam a atingir o emprego dos brasileiros. Ninguém sabe até quando a nossa economia aguenta manter os atuais níveis sensíveis em que se encontra.
Talvez mais alguns meses se nada for feito ou se não houver nenhuma outra guinada fantástica de globalização financeira no mundo e valorização das commodities que nos jogue para cima.
Não convém brincar com a sorte de milhões de brasileiros. Chegou o momento de diminuir a carga ideológica da política externa para darmos alguns passos em direção aos Estados Unidos, acabando de vez com os estranhamentos que pautaram nossas relações internacionais nos últimos anos.
Ao contrário das teses apocalípticas em torno do fim da era ocidental para esta década, os Estados Unidos estão crescendo, voltaram a ser nossos maiores compradores e podemos encontrar com eles combinações e parcerias mais favoráveis à nossa indústria exportadora.
Sem perder o foco, devemos buscar o reequilíbrio no nosso comércio e salvar o futuro dos nossos empregos. Governo novo, ideias novas.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Legado de Eduardo

MATIAS SPEKTOR

Em entrevista, denunciou a "diplomacia paralela" do PT e criticou a leniência com países vizinhos

Política externa nunca foi central no projeto pessoal de Eduardo Campos. Em sua trajetória --da política universitária à presidência do partido--, a conjuntura global não foi concebida como alavanca de poder nem como âncora de sua visão de país.
Não surpreende, portanto, que seus comentários sobre o tema encontrassem amparo no repertório diplomático do governo Lula, nem que, como candidato, ele evitasse bolas divididas sobre o assunto, que não lhe rendia votos nem magnetizava a sua militância.
Em maio passado, a conjuntura forçou uma mudança de atitude. Seus marqueteiros cobraram diferenças mais claras em relação a Dilma e a Aécio, criando identidade própria capaz de dar substância à promessa de superação da dobradinha PT-PSDB.
Inventar uma plataforma de política externa inovadora seria tarefa árdua. Não apenas há uma notável escassez de ideias a esse respeito no mercado intelectual, como o PSB, partido de Campos, tem tradição no assunto.
Sua voz mais eloquente é a de Roberto Amaral, nosso político profissional na ativa que mais escreve sobre relações internacionais.
Acomodar a cosmogonia de Amaral no projeto de Eduardo para 2014 estava fadado a ser um processo turbulento. Com seu estilo combativo, Amaral vislumbra uma política externa que bebe na Política Externa Independente dos anos 1960 e na visão de mundo do general Ernesto Geisel dos anos 1970.
Além do problema das ideias, havia o problema do poder. Amaral fez da política externa um baluarte do vínculo do partido com Lula e de sua própria autoridade sobre os correligionários.
Em sua posição, denunciou tudo aquilo que via como furor de Eduardo: a aliança com Marina, a convergência de ideias com Aécio e uma certa intolerância com as lideranças tradicionais da agremiação.
Dias antes de morrer, Eduardo tentou resolver o problema, cortando-o pela raiz.
A oportunidade apareceu quando a revista "Política Externa" comprometeu-se a publicar uma entrevista sem cortes nem edições a respeito da diplomacia de seu eventual governo.
As respostas de Eduardo golpeiam as teses mais tradicionais do partido. É Beto Albuquerque, não Roberto Amaral.
Rejeita-se a crença petista no declínio americano e defende-se o oposto: os Estados Unidos estariam vivendo uma vigorosa recuperação que os manterá na liderança econômica e tecnológica do planeta.
Na entrevista, Eduardo denuncia a "diplomacia paralela" do PT e critica a leniência com Argentina, Bolívia, Equador e, acima de tudo, Venezuela.
Ele oferece um caminho para flexibilizar o Mercosul, alerta para o risco embutido nos Brics e se diz compromissado com regimes globais de cunho liberal, seja em comércio ou direitos humanos.
O texto reconhece alguns trunfos de Lula estadista, mas mantém distância.
Se essa agenda terá futuro com Marina, ninguém sabe. Se bastará para disciplinar a nova constelação de forças no partido, também não. Folha, 20.08.2014.

É HORA DE DESTRAVAR A POLÍTICA EXTERNA

A economia brasileira é, hoje, uma das mais fechadas do mundo, com o comércio representando cerca de 20% do Produto Interno Bruto
Afora os Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e as relações com Pequim, a política externa brasileira travou, inclusive em setores prioritários --como Mercosul, América do Sul e comércio exterior.
O Mercosul está paralisado, se não em retrocesso. Em pouco mais de uma década, as vendas brasileiras para o grupo declinaram de 17% a 8% das nossas exportações. Os investimentos também caíram, enquanto as instituições do Mercosul não fizeram qualquer progresso significativo.
Chegou a hora da verdade para o Mercosul. Os países-membros do grupo terão de tomar decisões fundamentais: querem consolidar o livre-comércio? Pretendem manter a união aduaneira? Querem continuar a proteger bens intermediários, em detrimento da integração das cadeias produtivas?
Quaisquer que sejam as opções, o importante será cumprir as regras acordadas, de modo a restaurar a credibilidade que o Mercosul perdeu. Com a adesão da Venezuela ao grupo, inclusive a cláusula democrática virou letra morta.
Na América do Sul, em vez de caminharmos para a integração, marchamos a passos firmes para a desintegração, com o traçado de uma nova linha de Tordesilhas que separa o Mercosul, a leste, da Aliança do Pacífico, a oeste. O último grupo representa 34% do PIB e 51% do comércio da América Latina.
Em três anos, a Aliança do Pacífico avançou, em vários setores, mais do que o Mercosul. A busca de uma convergência entre os dois grupos encontra, no entanto, a resistência do Brasil.
Por fim, em comércio colocamos todas as fichas na OMC (Organização Mundial do Comércio). Com o fracasso, provavelmente definitivo, da Rodada Doha, ficamos a ver navios, pois não negociamos os acordos de comércio, bilaterais e regionais, que a maioria de nossos parceiros já concluiu.
O acordo entre o Mercosul e a União Europeia, o mais importante deles, ainda não foi finalizado --pela resistência da Argentina em aceitar concessões que os seus parceiros no Mercosul já fizeram, e pela recusa do Brasil em prosseguir nas negociações sem a Argentina, como, de fato, pode e deveria.
O custo para o Brasil será alto. Como relembrou José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, o Brasil poderá perder, entre outras vantagens, o acesso privilegiado ao mercado europeu de carne, caso as negociações com Washington avancem rapidamente, pois serão concedidas aos Estados Unidos as quotas que poderiam beneficiar o Brasil.
A abertura da economia é precondição para a retomada do crescimento. Assim como as reformas econômicas são um requisito para que a indústria possa competir.
A economia brasileira é, hoje, uma das mais fechadas do mundo. O comércio representa cerca de 20% do PIB --no caso da China, este percentual é de 53%. O presidente chinês, Xi Jinping, em sua visita recente ao Brasil, declarou que seu país não seria o que é hoje não fossem a abertura do comércio e as reformas da economia -- e Xi Jinping é insuspeito de inclinações neoliberais.
O travamento da política externa não ocorre apenas em setores prioritários. O comércio com a África continua a representar 5% de nossas exportações, como há várias décadas. As relações com Washington estão num ponto morto, exatamente no momento em que os Estados Unidos promovem uma revolução energética como prelúdio para um processo de reindustrialização, que abrirá oportunidades novas para cooperação e comércio.
É preciso não confundir visitas diplomáticas e comunicados conjuntos generosos com programas e parcerias efetivas. Infelizmente, temos sido pródigos na retórica e modestos nos resultados.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Desconsiderar os Brics ou não?

JULIA SWEIG

Se eu fosse um negociador americano, não faria pouco caso da cúpula, vendo-a como 'banana' antiocidental

Meu colega da Folha Clóvis Rossi observou recentemente que meus colegas do Council on Foreign Relations ignoraram a cúpula desta semana dos Brics quando montaram o "Calendário de Eventos Mundiais" de julho. Quer tenha sido descuido editorial ou omissão consciente, é verdade que as cúpulas dos Brics e Brics-Unasul mal são registradas pelo radar de Washington.
Compartilho a previsão dos céticos de que é bem provável que as reuniões produzam mais simbolismo que substância. O ditado segundo o qual o simples comparecimento de um chefe de Estado de peso já é por si só o propósito realizável não chega a demonstrar o peso político/diplomático dos Brics (nem de qualquer outra cúpula regional, na realidade).
E quem pode discordar das observações de cautela em relação ao banco e fundo de estabilização dos Brics? O banco vai levar tempo para tornar-se operacional, e ainda há muitas perguntas sem resposta sobre seus critérios de concessão de crédito e pagamento, transparência e elegibilidade.
O financiamento dos Brics (leia-se: principalmente da China) à infraestrutura no mundo em desenvolvimento vai exigir condições ambientais de obras potenciais? Nenhum grau de irritação com o sistema de cotas do FMI ou a condicionalidade do Banco Mundial deve justificar a concessão de empréstimos que desrespeitem o ambiente em nome do desenvolvimento.
O olhar atento que as ONGs ambientais impuseram aos empréstimos concedidos por bancos multilaterais tradicionais vai agora, certamente e justificavelmente, estender-se para o banco dos Brics.
Outro argumento comum contra a relevância dos Brics é que Washington, Bruxelas, Paris, Londres e Berlim sempre estarão preocupadas com outras questões de segurança global para as quais necessitam da cooperação das potências emergentes, mas duvidam que a consigam.
Além disso, argumentam os céticos, as relações bilaterais entre cada membro dos Brics e Washington ou a Europa vão dominar em termos econômicos, políticos e geopolíticos no curto e médio prazo.
Mesmo assim, os pensadores estratégicos da comunidade do Atlântico Norte hoje preocupados com o Irã, a Ucrânia, Israel, a faixa de Gaza e o mar do sul da China podem prestar atenção por um instante.
Eles deveriam se perguntar o que significa o fato de que Xi Jinping e Vladimir Putin hoje se sentem confiantes o suficiente não apenas para prometer benesses financeiras --isso nós já ouvimos antes--, mas também para dar a entender que existem laços "políticos" mais profundos com os sul-americanos que participam da cúpula desta quarta-feira (16) em Brasília.
Washington, especialmente, deveria tomar nota: não são apenas Cuba, Venezuela e os outros países da Alba que estão diversificando seus portfólios comerciais, de investimentos e "políticos". A tendência de longo prazo de autonomia na política externa latino-americana e de hibridez nos modelos econômicos latino-americanos (nem ortodoxia do livre mercado nem capitalismo de Estado ou socialismo de Estado) desafia os Estados Unidos em termos não apenas históricos.

Laços econômicos, geográficos e humanos interligam estreitamente a região e os EUA, é certo. Mas, se eu fosse um dos americanos que precisam reunir votos no Conselho de Segurança da ONU, no FMI ou no Banco Mundial ou tivesse que montar uma coalizão para negociações climáticas exitosas, por exemplo, eu não me apressaria a fazer pouco caso das cúpulas dos Brics desta semana, enxergando-as como simples "banana" antiocidental simbólica.Folha, 16.07.14

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terça-feira, 17 de junho de 2014

Qatar tenta construir reputação diplomática

Por ROD NORDLAND e MARK MAZZETTI
DOHA, Qatar - Assim que chegaram, os cinco militantes do Taleban foram levados por uma frota de carros até o acostamento de uma rodovia nos arredores da capital. Ali, longe do olhar do público e sob o olhar atento da segurança qatariana, trocaram abraços com uma delegação que os recebeu. Então foram novamente levados, agora para um local desconhecido.
Se o Qatar cumprir o que promete, esses homens -libertados da prisão de Guantánamo em troca da soltura do sargento americano Bowe Bergdahl, mantido como refém no Afeganistão,- não vão voltar ao campo de batalha nem serão recrutados pelo Taleban como poderosa ferramenta de propaganda, pelo menos não por um ano.
Os trunfos em jogo são altos para o presidente Obama, fortemente criticado por ter, segundo alguns, pago um preço alto demais pela libertação de Bergdahl. No passado, alguns prisioneiros libertados de Guantánamo voltaram a combater.
Mas, nesse caso, o Qatar também tem muito em jogo, já que apostou sua reputação, já enfraquecida, em sua capacidade de manter os homens sob controle e longe das vistas de todos.
"Confiamos que o Qatar terá a capacidade de implementar as exigências e a vontade para tal", declarou um funcionário da administração Obama.
Antes da chegada dos presos, em 1° de junho, o Qatar prometeu que os talebans libertados não farão discursos, não darão entrevistas individuais ou coletivas e não sairão em público. Se telefonarem ao Afeganistão, prometeram os qatarianos, será para suas famílias, não para seus companheiros de armas. Eles estão proibidos de fazer qualquer agitação ou de sair desse país minúsculo no golfo Pérsico pelo prazo de um ano.
O Qatar, que há muito tempo aspira ter importância na diplomacia global, viu sua influência regional se enfraquecer na medida em que seus aliados no Egito, na Tunísia, na Síria e na Líbia perderam poder e força.
O país saiu-se mal, há um ano, quando um esforço para abrir uma representação do Taleban não rendeu discussões de paz com os EUA, como o Qatar esperava. Os representantes do Taleban no Qatar hastearam uma bandeira e começaram a agir como uma embaixada no exílio. O presidente afegão, Hamid Karzai, ficou furioso.
Os qatarianos estão determinados a garantir que nada dê errado desta vez. O xeque Tamim bin Hamad Al-Thani chegou ao poder em junho passado, após a abdicação inesperada de seu pai, o xeque Hamad bin Khalifa Al-Thani, imediatamente após as reações de ultraje pela abertura da representação do Taleban. Ele vem tentando conduzir a política externa do país para mais ênfase na mediação e menos na intervenção direta.
O Qatar controla a emissora Al Jazeera, e muitos de seus vizinhos reagem mal à cobertura crítica feita pelo canal de notícias. A política do Qatar de fornecer armas à oposição na Síria mostrou-se preocupante quando a guerra no país pareceu ter chegado a um impasse e facções extremistas jihadistas se destacaram entre os rebeldes sírios.
Em março, a Arábia Saudita, o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos, três dos seis membros do Conselho de Cooperação do Golfo, tomaram a medida incomum de chamar de volta seus embaixadores no Qatar para protestar contra o apoio do Qatar à Irmandade Muçulmana, cujos ativistas tinham sido bem recebidos no país depois de fugirem do Egito.
"Estão tentando voltar a ser o Qatar de 2007, os bonzinhos, amigos de todo o mundo", disse Michael Stephens, do Royal United Services Institute, centro de pesquisas britânico. "Neste momento, o Qatar está tentando apenas avançar o quanto pode de uma maneira que seja inofensiva."NYT, 17.06.2014

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Aliança do Pacífico e Mercosul não são blocos excludentes

ENTREVISTA - HERALDO MUÑOZ
Chanceler do Chile afirma que seu país tem dialogado com o Brasil para uma integração continental, deixando de lado a ideologia
MÔNICA BERGAMOCOLUNISTA DA FOLHA
O Chile quer ser uma ponte entre a Aliança do Pacífico e o Mercosul, os dois principais blocos comerciais latino-americanos. E um não exclui o outro, como diz o chanceler chileno, Heraldo Muñoz, 65. Nesta entrevista, ele diz que o Chile tem um modelo de desenvolvimento "diferente" da Argentina ou da Venezuela, mas defende a convergência dentro do continente.
Folha - Quando Michelle Bachelet voltou à Presidência, o governo brasileiro disse que queria se aproximar muito do novo governo do Chile. Como será isso na prática?
Heraldo Muñoz - Tem havido um diálogo intenso entre as duas chancelarias. Reunimo-nos antes da posse [de Bachelet, em março] para nos coordenarmos para a primeira reunião da Unasul que, no Chile, trataria da Venezuela [onde ocorriam protestos].
Minha primeira visita bilateral foi ao Brasil. O país indicará um diplomata para integrar a missão chilena no Conselho de Segurança da ONU [o Chile ocupa um assento não permanente até o fim de 2015]. Em troca, o Brasil nos dará informações sobre países onde não temos chancelaria, especialmente os da África.
A nosso convite, os chanceleres do Brasil e da Argentina foram a uma reunião com 170 empresários da Apec [Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, na sigla em inglês]. E estamos falando de modalidades de convergência entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico.

A Aliança do Pacífico já foi definida como antídoto para governos de esquerda da região.
Não concordo com essa visão. AP e Mercosul não são blocos excludentes. Há possibilidades concretas de avançar até uma convergência. Em segundo lugar, a política exterior do Chile não é ideológica. Para nós, a AP é um bloco de integração econômica, não ideológica.

Mas parecia ser.
Por isso mesmo nós dissemos de forma clara e categórica: se há alguma intenção de transformar a AP em um bloco político excludente ou supostamente de contraponto ao Mercosul, o Chile não vai compartilhar.
Aspiramos ser um país-ponte e também porto em direção à Ásia e ao Pacífico. É evidente que, para isso, é preciso que os países do Atlântico exportem seus produtos (para a Ásia) através dos portos chilenos. Só estar alinhado à AP não nos serve. A nossa ideia é de convergência na diversidade. Temos um caminho de desenvolvimento diferente, quem sabe, da Argentina ou da Venezuela.

Os países do Mercosul seriam populistas?
De nenhuma maneira. Os empresários chilenos, por exemplo, estão investindo e criando 100 mil postos de trabalho no Brasil. Temos com o país, bilateralmente, uma liberação comercial de 98%. Com a AP, de 92%. É um mito dizer que aqui existe um bloco mais liberal.

O senhor acredita que um dia o continente poderá se juntar em um só bloco?
Quem sabe, em um horizonte mais distante, isso seja factível. Mas hoje é preciso, de maneira pragmática, começar um processo de diálogo gradual e de complementaridade. Vou levar uma série de ideias à próxima reunião de chanceleres do Pacífico, no México. Não queremos colocar um freio na AP, mas sim enxergar o que é factível com o Mercosul, como uma convergência alfandegária, facilitação do turismo, integração cultural. Podemos usar o conceito das distintas velocidades da União Europeia, que permite aos países avançar mais rápido que os outros, caso o queiram.

Seria o que o senhor chama de uma só voz no continente?
Sim, uma só voz no continente, o que é fundamental hoje num mundo que negocia em blocos. Se a América Latina não é capaz de se colocar de acordo, vamos ficar à margem. Hoje em dia, no G20, há três países: Brasil, México e Argentina. Não há coordenação entre eles. Corremos o risco de perder as oportunidades que estão se abrindo em nível global.

Que balanço faz da participação da Unasul no diálogo com a Venezuela?
Quando fomos a Caracas, fizemos gestões muito difíceis. Falamos com o governo primeiro, depois com a oposição, buscando espaços de interlocução entre eles. Conseguimos recompor algo da confiança [entre as partes]. O momento é difícil: a oposição fala que as conversas estão congeladas. O fato é que, desde o início do diálogo, não tem havido mortes.

A Unasul fez questões duras para o governo?
Sim. Nos diálogos com o presidente Maduro, fomos muito francos. Mas não vou falar do que tratamos porque foram diálogos privados. Cabe aos venezuelanos chegar a um acordo. A Unasul não pode fazer o que eles não estejam dispostos a fazer. 

Folha, 29.05.2014

A Europa vai se suicidar?

Crescimento dos partidos xenófobos e eurofóbicos não deve permitir nem complacência nem histeria
É assustador o avanço dos partidos eurofóbicos e xenófobos nas eleições de domingo (25) para o Parlamento Europeu, mas o pior que poderia acontecer seria deixar-se tomar pela histeria.
Um olhar não histérico sobre a votação dirá que, sim, é horrível que a extrema direita tenha passado de 56 eurodeputados, em um total de 736, para 108 em 751, que é a nova composição da Eurocâmara. Praticamente dobrou, portanto.
Mas, ainda assim, não passam de 14% do total. Mais: na metade dos 28 países europeus, não se elegeu nenhum eurofóbico (Espanha, Romênia, República Tcheca, Portugal, Bulgária, Eslováquia, Croácia, Irlanda, Letônia, Eslovênia, Chipre, Estônia, Luxemburgo e Malta).
Ou seja, a xenofobia/eurofobia, irmãs siamesas, não é um fenômeno generalizado. Na lista estão dois dos países mais espancados pela crise (Espanha e Portugal). Em Portugal, perdeu o partido do governo, mas subiu o seu adversário tradicional (o Partido Socialista).
Na Espanha, perderam votos os partidos sempre majoritários (conservador e socialista), mas surgiu um grupo ("Podemos") que representa os "indignados", para nada xenófobo.
Mesmo na Grécia, devastada pela crise e pelo austericídio, perdeu o governo, mas ganhou a Syriza (Coligação de Esquerda Radical), que não é contra a Europa e menos ainda xenófoba, ao contrário, aliás.
Mesmo na França, em que, aí sim, o susto foi espetacular, com a vitória da Frente Nacional, é preciso cautela ao imaginar que se trata do início de crescimento imparável que acabará depositando Marine Le Pen no Palácio do Eliseu.
É bom lembrar que, em 2002, a FN foi para o segundo turno da eleição presidencial, deixando o Partido Socialista para trás, mas acabou triturada no voto final.
O outro partido eurofóbico de sucesso no domingo (o Ukip, Partido pela Independência do Reino Unido) cresceu em número de conselheiros (espécie de vereadores) nas eleições locais, simultâneas com as europeias, mas não elegeu um único presidente de conselho.
O eleitor parece achar que o Parlamento Europeu não interfere diretamente na sua vida e, portanto, pode despejar nele qualquer loucura. Mas, na hora de escolher para seu próprio país, vota nos partidos clássicos.
Feitas todas as ressalvas, não há, no entanto, lugar para a complacência. Como diz Joaquín Almunia, vice-presidente da Comissão Europeia, braço executivo do bloco, "não mudar nada depois dos resultados da eleição seria suicídio".
Afinal, parece ter razão o sociólogo espanhol Jordi Vaquer ao escrever, para "El País", que os eleitores "não estão fartos da Europa, mas DESTA Europa", ou seja, da Europa do austericídio.
Mensagem recolhida pelo grande vencedor de domingo, entre os partidos convencionais, o presidente do Conselho de Ministros italiano, Matteo Renzi: está propondo uma "ope­ra­cão key­ne­sia­na", com es­tí­mu­los e in­vestimentos, além de uma convenção constitucional para relaxar as rígidas regra­s fiscais da eu­ro­zo­na. A ver, pois, se a Europa se suicida ou não. Clovis Rossi. Folha, 29.05.2014.